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Mensagens

A Velha

Tinha acabado de fazer a curva e deparei-me com ela mesmo ao meio da estrada. Soltava impropérios direitos a um pinhal, ainda distante, à sua frente. Vi-a de lado, curvada e pensei-a deitada em cima de uma bola insuflável, daquelas grandes que se usam no pilates, verde de preferência, tal perfeita era a linha curva da sua coluna e de tal forma acentuada que fazia com que a sua cabeça pendesse pouco acima da sua cintura mas à altura da minha. Linha de uma vida também de trabalho simbolizada pela enxada que segurava na mão direita e que levantava repetidamente batendo-a de seguida contra o chão como que marcando o ritmo do som da sua raiva. Lembrei-me do movimento que o meu pai fazia quando a lâmina teimava em deixar a parte do cabo que se fazia mais grosso mas em batidas diferentes no ritmo e na força porque o meu pai era mais novo e nunca lhe ouvi tais ganas. Tenho a certeza que seria naquela sua mão, e não na outra, porque o fim do meio da estrada, onde ela teimava em se manter, demor...

Museu Nacional da Resistência e Liberdade

Quando era miúdo morava ao pé de dois irmãos. Ela, com um filho 4 anos mais velho do que eu. Ele e a companheira, sem filhos, um casal que permanecia ali por tempos muito curtos, onde regressavam amiúde trazendo-me sempre alguma guloseima que me iludia na compreensão de que viviam numa autocaravana a maior parte do tempo. Em tempos e lugares incertos. Soube mais tarde que as viagens eram entradas e saídas na clandestinidade, que associei, mais tarde ainda, aos panfletos que apareciam esporadicamente em cima da mesa da cozinha que desapareciam assim que eu chegava. Se alguma vez foram presos políticos, não o soube. Frequentei aquela casa vezes sem conta onde nunca se discutia política ou religião mesmo depois dos clandestinos passarem a habitar uma casa presa ao chão. Ateus convictos e comunistas por simpatia, vivo com a certeza que defendiam apenas o pensamento livre, voasse ele depois para onde quisesse. Lembrei-me deles hoje quando visitei o Museu Nacional de Resistência e Liberdade ...

Voz e Dois Pianos

A idade trouxe-me pieguice emocionada. Apercebi-me disso quando a visão se me turvou por diversas vezes. A última vez que estive perto do Vitorino foi numa longínqua Festa do Avante. Sempre de boina preta, ontem de óculos escuros, vestia um casaco e umas calças do mesmo preto num desuso a que me habituei mas que aceitei por já não se fazerem cantadores assim. Os contadores de historias comuns estão a desaparecer porque nunca renunciaram à simplicidade. Mas também " porque já não há encontros como aqueles do café Expresso, que mais parecia uma carruagem de comboio porque tinha um balcão corrido, onde (ele) se sentava com o Herberto Hélder e outra gente que também não tinha importância nenhuma porque na verdade o que era importante foram as palavras que ficaram. Ou a do tocador de concertina do Redondo que tocava sempre com uma fotografia da namorada na parte detrás do instrumento e que, só por isso, merecia ser cantado ". Se há coisas que lamento na minha vida foi não ter vivi...

Comparações

Sempre que vou a casa do meu pai entro pela garagem e faço-me anunciar pelo toque da campainha como qualquer visita. Tomei este hábito desde que a minha mãe morreu. Atravesso o que foi outrora o quarto onde nasci, e o sol da manhã descobre-me projectando a minha sombra onde durante toda a infância esteve a cama dos meus pais. Calculo que seja pelas boas memórias que se tornou hábito. Passo pelo espaço estreito entre a parede e o carro e pergunto-me: terá toda a minha vida sido condicionada por este retângulo exíguo? Nasci num bairro onde só havia rapazes. Fomos os irmãos mais velhos uns dos outros. As mães eram todas domésticas e pareciam não se preocupar com as nossas ausências. Também nunca nos queixávamos delas, como se as suas vidas não tivessem importância nenhuma para nós. Ontem ouvi dizer de alguém novo de idade: - se os meus pais tivessem insistido mais comigo ou me tivessem obrigado a estudar ou a fazer algumas coisas que eu não queria, talvez a minha vida fosse diferente para...

Nomes com duplo apelido

Não tenho memória autobiográfica anterior ao dia em que a minha mãe me levou pela mão à entrada do colégio para aprender as letras. Foi ali que convivi com a tradição secular de um recreio apenas para os rapazes, coisa que não estranhei porque nas brincadeiras da minha rua também não havia raparigas. O Damião de Góis em Alenquer era dirigido pelo Padre Zé, de quem me lembro simples num diminutivo que contrastava com a sua presença alta, de carácter pragmático, cuja bondade divina não se fazia sentir fora das aulas de religião e moral. Tive duas professoras no ensino primário. Talvez por ter sido a primeira, recordo a Maria Francisca com mais carinho do que a Maria Irene. Devo ter sido, nem sempre, um miúdo bem comportado porque não me tenho presente na ponta da cana da índia que repousava entre o quadro preto e os mapas do Portugal Administrativo, Insular e Ultramarino, mas lembro-me das vezes que tive dificuldade em subir para o estrado onde uma régua cega descia na palma da minha mão...

O fio

Quase sempre não me lembro dos sonhos. Quando acontece, o tempo, só pode ser do tempo, encarrega-se de os ir desfocando e passados 15 dias já nada retenho. É como quando, em viagem, me afasto de uma paisagem após a primeira curva. Pior, porque depois da curva, ainda me ficam as cores, os contornos, a luz, o tempo. Nos sonhos não, à primeira curva tudo morre no esquecimento. As curvas e a memória devem se entender em meu desfavor. Registá-los é a oportunidade de os manter enquanto o caminho é a direito.   Desta vez encontrava-me numa pequena sala desconhecida rodeado de gente dispersa que passou pela minha adolescência. Deveria ser por essa altura porque era assim que me recordo deles. Não me conseguia perceber mas suponho que também os acompanhava na idade.  Lembrava-me de alguns, estavam na mesma de quando os vi pela última vez há muitos anos. Tal como eles, eu também deveria estar de calções. Talvez por tudo isso sentia-me bem. A sala estava pintada por igual de um cast...

Um dia hei-de levar-te comigo

Hoje lembrei-me da minha mãe e os meus olhos humedeceram-se mais uma vez. Que conexão vertical é esta? Que 28 anos depois da sua morte ainda subsiste? Gostava que existisses na minha felicidade. O amor de filho é assim, tardio. Fica sempre para mostrar mais tarde. É um estado de desejos inacabados: " Quando trabalhar hei-de ganhar dinheiro para te comprar aquilo que mais gostas", "h ei-de levar-te àquele sítio que nunca foste".  É um amor que nasce inconsciente, que se forma do confronto com a realidade e nunca se deixa de sentir com a ausência. É o amor do instinto da sobrevivência, da promessa incumprida. Com a certeza que nunca caímos sozinhos.  As recordações que lhe fiquei foram do frio da sua cara nos meus lábios no dia em que morreu. E do último abraço que lhe dei. O primeiro e único da minha vida sem resposta. Depois daquele momento, fui aprendendo os defeitos que não me tinham sido permitidos conhecer-lhe. A genética, tal como os anuários, são ciências exac...