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Mensagens

Comparações

Sempre que vou a casa do meu pai entro pela garagem e faço-me anunciar pelo toque da campainha como qualquer visita. Tomei este hábito desde que a minha mãe morreu. Atravesso o que foi outrora o quarto onde nasci, e o sol da manhã descobre-me projectando a minha sombra onde durante toda a infância esteve a cama dos meus pais. Calculo que seja pelas boas memórias que se tornou hábito. Passo pelo espaço estreito entre a parede e o carro e pergunto-me: terá toda a minha vida sido condicionada por este retângulo exíguo? Nasci num bairro onde só havia rapazes. Fomos os irmãos mais velhos uns dos outros. As mães eram todas domésticas e pareciam não se preocupar com as nossas ausências. Também nunca nos queixávamos delas, como se as suas vidas não tivessem importância nenhuma para nós. Ontem ouvi dizer de alguém novo de idade: - se os meus pais tivessem insistido mais comigo ou me tivessem obrigado a estudar ou a fazer algumas coisas que eu não queria, talvez a minha vida fosse diferente para...

Nomes com duplo apelido

Não tenho memória autobiográfica anterior ao dia em que a minha mãe me levou pela mão à entrada do colégio para aprender as letras. Foi ali que convivi com a tradição secular de um recreio apenas para os rapazes, coisa que não estranhei porque nas brincadeiras da minha rua também não havia raparigas. O Damião de Góis em Alenquer era dirigido pelo Padre Zé, de quem me lembro simples num diminutivo que contrastava com a sua presença alta, de carácter pragmático, cuja bondade divina não se fazia sentir fora das aulas de religião e moral. Tive duas professoras no ensino primário. Talvez por ter sido a primeira, recordo a Maria Francisca com mais carinho do que a Maria Irene. Devo ter sido, nem sempre, um miúdo bem comportado porque não me tenho presente na ponta da cana da índia que repousava entre o quadro preto e os mapas do Portugal Administrativo, Insular e Ultramarino, mas lembro-me das vezes que tive dificuldade em subir para o estrado onde uma régua cega descia na palma da minha mão...

O fio

Quase sempre não me lembro dos sonhos. Quando acontece, o tempo, só pode ser do tempo, encarrega-se de os ir desfocando e passados 15 dias já nada retenho. É como quando, em viagem, me afasto de uma paisagem após a primeira curva. Pior, porque depois da curva, ainda me ficam as cores, os contornos, a luz, o tempo. Nos sonhos não, à primeira curva tudo morre no esquecimento. As curvas e a memória devem se entender em meu desfavor. Registá-los é a oportunidade de os manter enquanto o caminho é a direito.   Desta vez encontrava-me numa pequena sala desconhecida rodeado de gente dispersa que passou pela minha adolescência. Deveria ser por essa altura porque era assim que me recordo deles. Não me conseguia perceber mas suponho que também os acompanhava na idade.  Lembrava-me de alguns, estavam na mesma de quando os vi pela última vez há muitos anos. Tal como eles, eu também deveria estar de calções. Talvez por tudo isso sentia-me bem. A sala estava pintada por igual de um cast...

Um dia hei-de levar-te comigo

Hoje lembrei-me da minha mãe e os meus olhos humedeceram-se mais uma vez. Que conexão vertical é esta? Que 28 anos depois da sua morte ainda subsiste? Gostava que existisses na minha felicidade. O amor de filho é assim, tardio. Fica sempre para mostrar mais tarde. É um estado de desejos inacabados: " Quando trabalhar hei-de ganhar dinheiro para te comprar aquilo que mais gostas", "h ei-de levar-te àquele sítio que nunca foste".  É um amor que nasce inconsciente, que se forma do confronto com a realidade e nunca se deixa de sentir com a ausência. É o amor do instinto da sobrevivência, da promessa incumprida. Com a certeza que nunca caímos sozinhos.  As recordações que lhe fiquei foram do frio da sua cara nos meus lábios no dia em que morreu. E do último abraço que lhe dei. O primeiro e único da minha vida sem resposta. Depois daquele momento, fui aprendendo os defeitos que não me tinham sido permitidos conhecer-lhe. A genética, tal como os anuários, são ciências exac...

A matança do porco dos meus avós

Sempre que vou a uma charcutaria fico a olhar os presuntos sem saber qual deles trazer. A maior parte das vezes apenas trago a ideia que nenhum se iguala ao sabor daquele que ainda guardo nas memórias de infância e que vinha sempre comigo quando visitava os meus avós. Os meus avós paternos viviam perto do Louriçal num pequeno ajuntamento com menos de meia dúzia de casas e de acessos difíceis, dando jus ao nome de Casais de Além. Quando pequeno ia lá duas vezes por ano uma das quais para a matança do porco, sempre no rigoroso frio de Inverno para que as carnes não se estragassem na preparação . O meu pai aproveitava para lembrar da sua infância perdida, quando dali saiu para guardar ovelhas. Não havia água canalizada nem luz eléctrica. Os únicos aquecimentos que ali conheci foi um cobertor de papa e uma manta de retalhos que me recolhiam à noite no colchão de palha, aconchegado no Oceano Pacífico que saia de um pequeno rádio Philips preto que colocava debaixo da almofada e que apenas ...

A cadela Laica

A minha mãe queria-me menina. Estou certo disso. Não enquanto viveu que se me tivesse confessado mas adivinhei-lhe sempre pela forma como me pegava ao colo, me mantinha o cabelo e pelo enxoval que teimava em me estrear novo. Mais mês, menos coisa, comecei a ficar sofrido e reclamei calções. Olha para ti com essas pernas tão magras que parecem uns canivetes. Conheci-lhe esta forma de modular as coisas. Deixava-me desequilibrado aos bons e maus conselhos da consciência esforçando-se por os dividir a seu favor. Os canivetes e a teimosia castigaram-me em óleo fígado de bacalhau vertido numa colher de sopa diária. Em frascos verde escuro, altos, rectangulares, sem qualquer sabor disfarçado e de uma intensidade que ainda hoje trago no olfacto. Aprendi a fugir-lhes para a loja dos vizinhos recuperando-me no cheiro da infusão de ervas e na meiguice daquele bichon maltês.  A sapataria onde me refugiava era logo ali a um braço esquerdo da minha porta e a paredes meias com outra do mesmo...

A Praínha

Os registos das minhas memórias declarativas são, quase sempre, aquelas que consigo reconstruir a partir de sentimentos. Lembro-me daquela enseada, a que chamávamos praínha, com o mar à frente e uma muralha de rochas atrás onde passei tempos perdidos a lançar o disco para o céu na esperança que regressasse o mais próximo possível sem tirar os pés do mesmo sitio. Quem também passava tempos infinitos a olhar para o céu era o meu pai. Para um céu diferente do meu, onde o disco er a substituído por uma ponteira de cana de pesca que o atraia insistentemente, sem razão já que havia lá um guizo que acordava quando algo importante se passasse. Uma vez comprou-me uma cana e lá fui com ele, mas o meu guizo dormiu toda a noite e nunca mais voltei. A minha mãe não olhava para o céu, olhava para mim adivinhando o momento de voltar à toalha, preocupada que as bolachas maria e a fruta regressassem connosco no final do dia. Do que não me lembro mesmo é de nós os três deitados assim na a...