Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

Um dia hei-de levar-te comigo

Hoje lembrei-me da minha mãe e os meus olhos humedeceram-se mais uma vez. Que conexão vertical é esta? Que 28 anos depois da sua morte ainda subsiste? Gostava que existisses na minha felicidade. O amor de filho é assim, tardio. Fica sempre para mostrar mais tarde. É um estado de desejos inacabados: " Quando trabalhar hei-de ganhar dinheiro para te comprar aquilo que mais gostas", "h ei-de levar-te àquele sítio que nunca foste".  É um amor que nasce inconsciente, que se forma do confronto com a realidade e nunca se deixa de sentir com a ausência. É o amor do instinto da sobrevivência, da promessa incumprida. Com a certeza que nunca caímos sozinhos.  As recordações que lhe fiquei foram do frio da sua cara nos meus lábios no dia em que morreu. E do último abraço que lhe dei. O primeiro e único da minha vida sem resposta. Depois daquele momento, fui aprendendo os defeitos que não me tinham sido permitidos conhecer-lhe. A genética, tal como os anuários, são ciências exac...

A matança do porco dos meus avós

Sempre que vou a uma charcutaria fico a olhar os presuntos sem saber qual deles trazer. A maior parte das vezes apenas trago a ideia que nenhum se iguala ao sabor daquele que ainda guardo nas memórias de infância e que vinha sempre comigo quando visitava os meus avós. Os meus avós paternos viviam perto do Louriçal num pequeno ajuntamento com menos de meia dúzia de casas e de acessos difíceis, dando jus ao nome de Casais de Além. Quando pequeno ia lá duas vezes por ano uma das quais para a matança do porco, sempre no rigoroso frio de Inverno para que as carnes não se estragassem na preparação . O meu pai aproveitava para lembrar da sua infância perdida, quando dali saiu para guardar ovelhas. Não havia água canalizada nem luz eléctrica. Os únicos aquecimentos que ali conheci foi um cobertor de papa e uma manta de retalhos que me recolhiam à noite no colchão de palha, aconchegado no Oceano Pacífico que saia de um pequeno rádio Philips preto que colocava debaixo da almofada e que apenas ...

A cadela Laica

A minha mãe queria-me menina. Estou certo disso. Não enquanto viveu que se me tivesse confessado mas adivinhei-lhe sempre pela forma como me pegava ao colo, me mantinha o cabelo e pelo enxoval que teimava em me estrear novo. Mais mês, menos coisa, comecei a ficar sofrido e reclamei calções. Olha para ti com essas pernas tão magras que parecem uns canivetes. Conheci-lhe esta forma de modular as coisas. Deixava-me desequilibrado aos bons e maus conselhos da consciência esforçando-se por os dividir a seu favor. Os canivetes e a teimosia castigaram-me em óleo fígado de bacalhau vertido numa colher de sopa diária. Em frascos verde escuro, altos, rectangulares, sem qualquer sabor disfarçado e de uma intensidade que ainda hoje trago no olfacto. Aprendi a fugir-lhes para a loja dos vizinhos recuperando-me no cheiro da infusão de ervas e na meiguice daquele bichon maltês.  A sapataria onde me refugiava era logo ali a um braço esquerdo da minha porta e a paredes meias com outra do mesmo...

A Praínha

Os registos das minhas memórias declarativas são, quase sempre, aquelas que consigo reconstruir a partir de sentimentos. Lembro-me daquela enseada, a que chamávamos praínha, com o mar à frente e uma muralha de rochas atrás onde passei tempos perdidos a lançar o disco para o céu na esperança que regressasse o mais próximo possível sem tirar os pés do mesmo sitio. Quem também passava tempos infinitos a olhar para o céu era o meu pai. Para um céu diferente do meu, onde o disco er a substituído por uma ponteira de cana de pesca que o atraia insistentemente, sem razão já que havia lá um guizo que acordava quando algo importante se passasse. Uma vez comprou-me uma cana e lá fui com ele, mas o meu guizo dormiu toda a noite e nunca mais voltei. A minha mãe não olhava para o céu, olhava para mim adivinhando o momento de voltar à toalha, preocupada que as bolachas maria e a fruta regressassem connosco no final do dia. Do que não me lembro mesmo é de nós os três deitados assim na a...

Memória da escola primária

Todos temos memórias de caminhos. Durante os primeiros anos da escolaridade fiz o mesmo entre a minha casa e o Colégio Damião de Gois situado a meio da inclinada calçada que ligava a vila baixa à vila alta. Porque a minha memória fica sempre perdida no tempo não me lembro do primeiro dia mas o caminho, esse, ainda é o mesmo. Saia do Bairro do Areal seguindo a rua escura por estreita que se destapava mais à frente no sítio do marco do correio, iluminando o rio logo ali. Cami nhava no sentido de quem segue para o mar sempre pelo passeio empedrado. Vai pelo passeio de pedra ensinou-me minha mãe por uma questão de segurança não fosse o diabo tecê-las e caísse, um dia, pela ribanceira abaixo e me afogasse. Só quando ganhei confiança me atrevi a correr no da esquerda, perigoso quando chovia cheio de lama. Depois da minha casa, a cerca de 80 metros estava a porta de onde saía a Teresa, minha companhia diária. Nasceu dois dias depois de mim. Era linda naqueles olhos azuis e ca...

Dia da Mãe

Não me lembro da data da morte da minha mãe. Nem da do seu nascimento. Morreu muito nova, aos cinquenta e poucos anos. Não tenho ideia de todas estas datas. Apenas lembro de me terem dito que tinha sofrido uma embolia cerebral quando lavava garrafas no quintal. E eu a imaginei sentada a cair para a frente sem vida. O meu pai todos os anos fazia água-pé. Ainda hoje a faz com 83 anos. Sei a idade do meu pai porque desde que a minha mãe morreu há uma parte de mim que os celeb ra. Mas a água-pé já não é igual porque as garrafas já não são lavadas da mesma maneira. À minha mãe recordo-a sempre igual seja qual a idade em que me revejo. Como a fotografia a preto e branco que teimo em manter na minha caixa das recordações. Eu cresço ela não. Nunca tive tempo para a observar. Passava sempre a correr para limpar a casa, coser roupa, cozinhar, ir à mercearia ali mesmo à porta. Recordo de a ver sair da terra onde nasci quando um mês por ano íamos até à praia e levava as roupas, os tac...

O impacto da informação na nossa vida

O telemóvel avisou-me novamente da notificação do Observador. Sem me consultar criou um som específico para isso e depois disse-me: podes silenciar em qualquer altura, deixando-me ficar com a sensação de controlo. Mesmo à distância sei do que se trata e, em cegueira, penso que mando. Ele sabe como funciona o meu cérebro e manda mesmo sem ver. As suas competências são mais eficazes. Eu lido com expectativas e atribuições ele domina-me o locus de controlo interno. Filho da puta. O meu pai nunca teve telemóvel. Um dia esforcei-me para lhe mostrar as vantagens da tecnologia. Pai podias ver-me e falar comigo, vês, olha aqui. Se me quiseres ver levantas o cu da cadeira e vens cá, respondeu. Calei-me e desculpei-me que lia as notícias sentado. Hoje visitei-o e perguntei-lhe para que serve eu saber das desgraças que passam no mundo. - Quais desgraças? Perguntou com uma voz de prazer desinformada sorrindo ao mesmo tempo que franzia o sobrolho. Mostrei-lhe a notícia do Observador. -...